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Especialista americano defende que a pauta ambiental deve prevalecer nas negociações bilaterais entre BR e EUA no próximo governo

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Webinar do Brazil-Florida Business Council apresentou o panorama nas relações comerciais e de negócios entre os dois países, além das possibilidades no futuro diante do novo governo

Ainda sem saber oficialmente o resultado da eleição presidencial norte-americana, mas com a tendência de Joe Biden ser vitorioso, o diretor-executivo das Américas do Eurasia Group, de Washington DC., Chris Garman, fez uma análise da eleição americana e dos impactos para o Brasil. Durante o webinar realizado ontem diretamente de Tampa – Flórida, pela Brazil-Florida Business Council, houve também painéis de parceiros e associados para oferecer uma visão pragmática dos efeitos da reeleição de Donald Trump ou da eleição do Joe Biden e como o resultado irá afetar os negócios e a base de clientes.

“Nós aqui nos Estados Unidos estamos vivenciando uma das eleições presidenciais americanas mais consequentes e importantes da história desse país, portanto esse evento online de hoje não poderia ser mais relevante”, disse a presidente da Brazil-Florida Business Council, Sueli Bonaparte.

Na sua apresentação Chris Garman salientou que a repercussão maior neste momento é o da governabilidade, porque os democratas dificilmente conseguirão o controle do Senado. Ele ter maioria democrata, mas parece mais improvável, segundo o especialista. “Teremos, possivelmente, Biden na Casa Branca e os republicanos controlando o Senado”, anteviu ele. “Precisamos pensar nas repercussões de um governo divido.

Cenário

O analista observou aspectos para a política externa e o Brasil no provável governo Biden e do congresso dividido. “Escuto muitas vezes as preocupações que a vitória do Biden colocaria o Brasil no ostracismo internacional devido à relação política e ideológica próxima do presidente Bolsonaro com presidente Trump e porque essa

proximidade não gera qualquer atrito, mas que num eventual governo Biden poderia haver a necessidade de demitir o ministro das relações exteriores ou do meio-ambiente, dado o desalinhamento político-ideológico”, expôs.

Garman considerou esse quadro pouco provável, porque hoje o candidato Biden tem muita experiência em política externa e capitaneou várias investidas internacionais quando era vice-presidente no governo Obama, tendo também muita experiência na Comissão de Relações Exteriores do senado americano. ”Ele entende a posição estratégica que o Brasil ocupa na América do Sul. Então não vai ser birras ideológicas que vão levar a um enfraquecimento nas relações bilaterais”, interpretou.

O expositor frisou que os Estados Unidos estão diante de uma competição geopolítica e geotecnológica com a China e essa é uma das principais preocupações, e a América Latina é o topo dessa competição. Garman destacou que o Brasil é uma economia grande demais para se virar as costas. “A relação binacional tem um tecido institucional que vai além de quem está na Casa Branca. Então eu não vejo descontinuidade”, prosseguiu.

Desdobramentos

Analisando os efeitos práticos o diretor-executivo das Américas do Eurasia Group pontua que não tendo uma possibilidade política a agenda bilateral, que estava vigorando, deixa de andar e o sonho de acordo comercial que no fundo estava sendo negociado dificilmente virá. No seu entender, a entrada na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) permanece, mas é preciso observar a posição do governo americano nessa entidade e dificilmente os acordos firmados serão desfeitos.

A principal repercussão que Garman observa está na pauta ambiental e é o grande tema na relação bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil e por isso merece mais atenção. É preciso reconhecer, segundo ele, que o governo Biden tem grande maturidade na pauta ambiental e na transição energética. “É uma das principais maneiras que irá contemplar a ala progressista do partido democrata e vai ser uma das grandes prioridades domésticas”, disse ele.

Este especialista em comércio internacional informou ainda que os assessores de Joe Biden já estão falando que na pauta ambiental a transição energética vai ser uma vertente essencial para a política externa. Garman sublinhou que a assessoria do virtual presidente adiantou que na política externa não haverá uma pauta comercial e uma pauta ambiental separadas. Portanto, ambas estarão interligadas.

Pauta ambiental

Na opinião do palestrante isso será um desafio para o Brasil. O ano de 2021 poderá ser um período dramático para este país na política externa em relação à pauta ambiental. ”Muita coisa pode dar errada ou talvez haja uma situação que ajude o Brasil. O risco principal é que independentemente das razões, ficou claro que o presidente Bolsonaro conseguiu se colocar internacionalmente como grande vilão na pauta ambiental”, analisou.

O expositor lembrou que para tanto houve justificativas como as queimadas na Amazônia e as reações e retórica do Palácio do Planalto. “O governo está com déficit de credibilidade tremendo”, enfatizou. A preocupação do palestrante é que na medida em que o Brasil tenha perdido credibilidade seja até natural e esperado que as críticas externas fiquem cada vez maiores e muitas vezes injustas.

“Se olharmos as queimadas no pantanal e compará-las com as queimadas na Austrália e Califórnia, as últimas seriam por causa das altas temperaturas e das mudanças climáticas, enquanto no Pantanal seriam por causa do Bolsonaro”, comparou ele, ironizando a situação.

O pensamento do Palácio do Planalto, na visão de Garman, entenderia isso como algo totalmente injusto e a razão de fato seria os interesses econômicos não transparentes com vista a minar a autonomia Brasileira. O governo brasileiro vê as críticas por trás dessas como justificativas para aquela tese do interesse econômico e não como sintoma do que acontece quando se perde credibilidade. “Quando se perde credibilidade as críticas são maiores e não tão justas”, deduziu.

Desequilíbrios climáticos

Uma questão sensível apontada pelo especialista que o preocupa é que se no próximo período de seca na Amazônia os índices de desmatamento piorarem em relação a este ano, as críticas externas serão bem mais pesadas. “Teríamos reação da Europa abraçando essa agenda e uma resposta belicosa, defensiva de parte do Palácio do Planalto, que reage mal às críticas”, completou. ”Vimos isso no debate presidencial com Donald Trump com os comentários do Joe Biden e podemos ter uma versão disso no próximo ano que pode levar a represálias econômicas”.

Garman, no entanto, argumentou que não acredita que a situação levantada irá acontecer. Não só porque o problema dos desmatamentos está dando sinais de redução para 2021, com a queda de ocorrências nos últimos três meses. Por outro lado, se Donald

Trump ganhar haverá um aprofundamento da relação bilateral e a pauta comercial tenderia a andar. “O grande prêmio para Joe Biden seria o avanço nas negociações do Acordo de Paris, no próximo ano. Então não faz sentido represálias contra o Brasil, quando se está querendo negociar um acordo. Se todos chegarem a um entendimento e criarem um mercado internacional de carbono, os brasileiros irão ganhar com atração de recursos para reflorestamento e a Amazônia”.

Seu último comentário abarcou a relação Estados Unidos e China, os desdobramentos na região e a repercussão no Brasil. Ele considera que os EUA estão numa competição geopolítica e geopolítica, que veio para ficar e isso independerá de quem chegará à Casa Branca. Entretanto, as demandas de Pequim serão difíceis e a América do Sul estará espremida na competição. “Caso Joe Biden ganhe, a relevância da China aumentará ainda mais”, conclui.

Participantes

Participaram do evento online como painelistas, o conselheiro Rodrigo Fonseca, que é vice-consul e encarregado do trade bureau do Consulado-Geral do Brasil em Miami; a advogada de imigração Luciana Zamith Fischer, que é sócia do escritório da Hunter, Taubman Fischer & Li, de Miami; Alexandre Pierantoni, diretor-executivo de fusões e aquisições da consultoria Duff & Phelps, de São Paulo; Michel de Amorin, sócio tributário da Drummond Advisors, de Miami; e Carlo Barbieri que é presidente do Oxford Group, de Boca Raton.

Por Matheus Duarte

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